COR · Business Club SP

Cinco números para abrir o debate

14.08.2026 · 10 min

+Abertura · antes dos númerosPor que a COR está falando disso

A COR nasceu há dez anos de uma contradição que o Santi e o José encontraram dirigindo a própria agência: eles podiam crescer, ganhar clientes, contratar talentos e fazer um trabalho extraordinário sem saber com precisão se ganhavam ou perdiam dinheiro em cada projeto. E quando essa resposta finalmente aparecia, o trabalho já estava feito e a margem já tinha sido perdida.

Dez anos depois o problema não desapareceu, mudou de escala. Durante décadas a economia de uma agência se organizou em torno de um único recurso: o tempo humano. A AI está mudando essa premissa. Durante anos o desafio foi coordenar pessoas. De agora em diante, vai ser coordenar pessoas e agentes, com velocidades, custos e modelos de pricing completamente diferentes.

E é exatamente aí que a gente está trabalhando: em unificar essa operação híbrida num só lugar. Pessoas e agentes no mesmo fluxo, com as mesmas regras, o mesmo registro de tempo e a mesma leitura de custo e margem. Não uma ferramenta a mais ao lado das outras, mas a camada onde a agência consegue ver, em tempo real, quem fez o quê, quanto custou e quanto sobrou.

Porque se boa parte do trabalho passa a ser feita por agentes e isso acontece fora do sistema, a agência perde justamente o que mais precisa neste momento: saber como ela opera.

Adianto a conclusão para que ninguém ouça o que vem como uma má notícia: a indústria não está desaparecendo, está se reorganizando. Mas se reorganizar exige olhar algumas coisas de frente.

O título de hoje fala de governança e de impacto real. Trouxemos quatro números sobre exatamente isso, do que nos disseram líderes de agências de 18 países.

012 minGovernança
Apenas

2,6%

das agências têm a AI integrada com impacto medido. E 95,6% já usam AI de alguma forma.

Em voz alta

Tem muitíssimo uso e muito pouca gestão desse uso.

Perguntas para jogar na mesa

  • Vocês medem o que a AI está fazendo na sua agência?
  • Quais agentes o time usa, com que frequência e quanto custam? Alguém tem esse número?
+Apoio para o debate

O 2,6% não fala de atraso tecnológico, fala de prioridade. Governança madura não é ter um manual de políticas: é alguém ter responsabilidade clara sobre como a AI é usada, o que pode ser delegado e o que não, e como o resultado é medido. Não exige orçamento nem tamanho — exige que alguém assuma.

10% têm governança madura. Enquanto a conversa continuar sendo qual ferramenta usar em vez de como integrá-la, esses 10% seguem sendo o teto.

Se alguém disser “já temos integrada”Devolver a pergunta: quem aprova, quem mede, e onde isso está escrito. Na prática, quase sempre a resposta é ninguém.

De CannesNas mesas nenhuma agência dizia “nós não usamos”. Mas quando a pergunta mudava de vocês usam? para quanto vale o que isso gera?, fazia-se silêncio. Ninguém tinha o número.

COR Report, 4ª edição · 18 países

Ordenar antes de acelerar

O caminho não começa escolhendo mais uma ferramenta. Começa deixando visível como o trabalho acontece hoje: quem faz o quê, quanto tempo leva, onde trava. Só depois disso faz sentido plugar AI nesse fluxo, porque aí existe um antes e um depois para comparar.

É o que a gente vê funcionando nas agências: quem organizou a operação primeiro consegue dizer quanto a AI economizou. Quem plugou AI numa operação opaca só tem a sensação de que está mais rápido.

Dizer como leitura da indústria, não como pitch.
022 minImpacto real
Apenas

21,1%

associam a AI a uma melhora direta de rentabilidade. Mas 79,8% percebem economia de tempo.

Em voz alta

O tempo economizado não desaparece: é realocado sem critério e a margem não se move.

Perguntas para jogar na mesa

  • Quanto custa produzir um entregável hoje, com agentes no meio?
  • Custos, tempos e pricing dos agentes são outros. Isso deixou de ser um problema financeiro: é operativo.
+Apoio para o debate

A distância entre 79,8% e 21,1% é a distância entre eficiência e captura de valor. E o risco não é ficar parado: a agência que usa AI apenas para produzir mais rápido está se comoditizando sozinha, porque entrega ao cliente o argumento para pagar menos sem ficar com nada em troca.

36% admitem que não medem esse impacto. A AI acelera o que já funciona e amplifica a desordem do que funciona mal: somar velocidade a uma operação caótica não gera clareza, gera mais caos mais rápido.

O dado contraintuitivoO custo por token caiu forte no último ano e meio, mas o custo total de AI por agência subiu. Mais barato por unidade, mais caro por mês, porque se usa muito mais. Como parece quase gratuita, é usada sem limite: quem antes fazia duas revisões hoje manda vinte e cinco prompts. É um custo fixo novo que entrou na estrutura às cegas.

COR Report + CEO Roundtables, Cannes Lions 2026

Do tempo economizado à margem

Essa economia só vira margem quando alguém consegue responder três coisas: quanto tempo esse entregável levava antes, quanto leva agora, e para onde foi a diferença. Sem registro do tempo real de trabalho, os três dados não existem — e o ganho evapora dentro da operação.

Por isso a ordem importa: primeiro se organiza e se mede a operação, depois se acelera. A AI amplifica o que já existe, para o bem e para o mal.

Dizer como leitura da indústria, não como pitch.
032 minVisibilidade
Apenas

11,7%

controlam desvios entre o que foi vendido e o que foi executado em tempo real. Os outros 88,3% descobrem tarde.

Em voz alta

A margem já foi perdida quando a maioria descobre.

Perguntas para jogar na mesa

  • Vocês descobrem o desvio com o projeto aberto ou depois de fechado?
  • Se soubessem na primeira semana, o que fariam diferente?
+Apoio para o debate

Os 88,3% descobrem no fechamento do mês, manualmente, ou quando o projeto já terminou. Nesse ponto não se perde só a margem: perde-se a chance de renegociar escopo, que é a única conversa que ainda estava disponível.

O dado que incomodaA visibilidade operacional não melhorou em um ano: 41,5% contra 43% na edição anterior. Enquanto a indústria discute AI, a conversa mais básica — saber como se opera — ficou parada. E 60,3% decidem com confiança média, baseada em dados históricos.

A consequência nos feesSem essa visibilidade fica difícil defender preço. Só 8,3% conseguiram usar a AI como argumento para defender ou aumentar fees, e 13,1% relataram pressão para baixo. Hoje a AI serve mais ao cliente para apertar do que à agência para se defender.

A boa notíciaRenegociar com dados reais passou de 24% para 47,6% em doze meses. Quem chega com evidência não pede, justifica — e um cliente que recebe uma justificativa com números tem muito menos margem para apertar. Mas só 21,4% renegociam regularmente: a maioria ainda se senta quando o problema já existe.

COR Report, 4ª edição

Visibilidade em tempo real é o que muda a decisão

A diferença entre saber hoje e saber no fechamento é a diferença entre decidir e constatar. Com o projeto aberto ainda dá para redistribuir time, renegociar escopo, avisar o cliente antes do estouro. No fechamento só sobra explicar.

É aí que a gente trabalha: registrar o tempo sem virar burocracia, mostrar o desvio enquanto o projeto está vivo e ver a rentabilidade por cliente e por projeto no dia, não no mês seguinte. Operação visível é o que permite decidir melhor — e é também o que permite chegar na conversa de fee com números em vez de sensações.

Dizer como leitura da indústria, não como pitch.
041 minMargem

1 em cada 2

agências perde entre 15% e 40% do tempo em retrabalhos. E 27% não conseguem nem medir isso.

Em voz alta

Isso explica por que a rentabilidade continua sendo a dor número um.

Perguntas para jogar na mesa

  • Quanto do tempo do seu time vai para retrabalho?
  • Quando o cliente pede a quarta rodada, isso aparece em algum lugar ou o time absorve?
+Apoio para o debate

62% operam com margens entre 10% e 30%, e 16,7% abaixo de 10% — zona de risco. Só 14,3% passam de 30% de forma consistente.

O retrabalho quase nunca nasce na produção. Nasce em aprovações duplicadas, mudanças mal alinhadas, informação dispersa, escopos ambíguos e conversas que vivem em canais demais ao mesmo tempo. Por isso não se resolve pedindo mais do time.

E existe uma lacuna que se repete em quase todo projeto: a diferença entre o que foi orçado e o que realmente custou executar. Não é acidente — é o resultado de escopos que se esticam em silêncio, prazos que não contemplam o retrabalho real e conversas incômodas com o cliente que muitas agências simplesmente evitam ter.

COR Report, 4ª edição

Retrabalho invisível é margem que ninguém cobra

Enquanto o retrabalho não aparece em nenhum lugar, ele é absorvido pelo time e sai da margem. Quando ele fica visível por projeto e por cliente, deixa de ser desgaste interno e passa a ser argumento: esta conta pede três rodadas extras por peça, e isso tem um custo.

Não é sobre trabalhar mais. É sobre entender melhor como se trabalha — e usar isso para ajustar escopo, prazo e preço antes de o projeto fechar no vermelho.

Dizer como leitura da indústria, não como pitch.
051,5 minTalento

23,2%

já têm menos posições júnior. E 46,5% não conseguem reter talentos-chave.

Em voz alta

Se o júnior é automatizado, de onde saem os seniores de 2030?

Perguntas para jogar na mesa

  • Vocês continuam contratando juniores?
  • Se não, quem está formando o critério que a agência vai precisar em 2030?
+Apoio para o debate

Reter (46,5%) e encontrar perfis de data, AI e estratégia (45,1%) aparecem quase empatados — a pior combinação possível: uma pressiona os salários para cima, a outra freia a capacidade de pegar trabalho novo. E a concorrência já não é só entre agências: é contra consultorias e big techs.

O que uma agência vende para uma marca não é produção, é critério. E o critério se construía de um único jeito: rodando, errando e consertando a mesma coisa muitas vezes. Se esse degrau é apagado sem colocar nada no lugar, o problema não aparece neste trimestre — aparece em 2030. Os 27,5% que já fazem re-skilling estão, na prática, reconstruindo esse degrau por outro caminho.

De CannesFoi o tema que dividiu as mesas ao meio: umas disseram sem rodeios que pararam de contratar juniores porque a AI faz esse trabalho; CEOs sustentaram o contrário, porque juniores trazem energia e ideias que estruturas mais sênior muitas vezes já não trazem. Não haver consenso já é o dado.

Frase de apoio“Se você não está trazendo gente por baixo, como vai formá-la lá em cima? O mentoring nunca foi tão importante como agora.” — David Sable, Vice Chairman da Stagwell e ex-CEO global da VML

Cuidar do time e da margem não são coisas opostas

Durante anos essa tensão foi vivida como escolha: ou você cuidava da margem, ou cuidava da sua gente. Ela existe porque as decisões são tomadas sem informação — não se sabe quem está sobrecarregado até a pessoa avisar que vai sair.

Com capacidade real do time visível, essa escolha deixa de ser necessária: dá para ver quem está no limite antes do estouro, distribuir melhor e liberar as horas de menor valor para os agentes, protegendo o tempo sênior para o que não se automatiza — o critério. Quem decide melhor cuida das duas coisas ao mesmo tempo.

Dizer como leitura da indústria, não como pitch.
FIMPassagem para Fábio e Ju

A AI deixou de ser o tema. O tema é a agência.

Como ela se organiza, como decide, como fatura, como cuida da sua gente e como explica ao cliente o que está fazendo. A tecnologia já está. O que falta construir é todo o resto.

+A ideia que atravessa tudo

Ordenar antes de acelerar. É a única frase que serve para responder qualquer pergunta do debate. A AI acelera o que já funciona e amplifica a desordem do que funciona mal — então a sequência não é opcional: primeiro se organiza a operação, depois se acelera.

E ordenar a operação significa uma coisa concreta: ver o trabalho em tempo real. Quanto tempo leva cada entregável, quanto deixa cada cliente, quanto desvio tem cada projeto enquanto ele ainda está aberto. Sem isso não há como medir o impacto da AI, defender um fee, proteger a margem nem saber quem do time está no limite.

Os quatro números de hoje são quatro versões do mesmo problema: a indústria está decidindo sobre o que não consegue ver. Quem resolve isso não ganha porque trabalha mais — ganha porque entende melhor como trabalha.

Se precisar fechar qualquer resposta e não souber por onde, é por aqui.

+Se o debate ficar catastrofista

80,6% dos líderes estão entusiasmados ou cautelosamente otimistas. Só 8,3% preocupados. A mesma amostra que se diz otimista é a que diz que as grandes vão se achatar e que só sobrevive quem se reinventa: não estão negando a transformação, estão aceitando. Há vontade de mudança, não resistência.

E só 7,9% esperam demissões em massa. O cenário que os líderes veem não é colapso, é reorganização.

Frase de apoio“Adotar não é integrar. Primeiro se organiza a operação, depois se acelera. Nunca o contrário.” — Sol Spicuglia, Regional Agency Lead, COR

+Se perguntarem sobre a COR

Dez anos, mais de mil agências, presença em 38 países. Em julho de 2026 foi anunciado um investimento de US$ 30 milhões da FTV Capital para escalar a plataforma em direção a serviços profissionais. Primeiro investidor: Marcos Galperín. Entre os clientes, Globant Gut, MullenLowe Delta e Sancho BBDO.

Não abrir por aqui. Serve como resposta, não como apresentação.

COR Report 4ª edição · CEO Roundtables Cannes Lions 2026