AgênciasAI29 de set. de 2026

A IA não organiza a sua agência. Ela amplifica o que já existe

Birger Kamrath, country manager da COR no Brasil, conversou com Edu Wolkan no podcast Mundo do Marketing

Birger Kamrath, country manager da COR no Brasil, conversou com Edu Wolkan no podcast Mundo do Marketing, em uma temporada especial gravada nos estúdios montados dentro do B2B Summit. O papo girou em torno do que a inteligência artificial está mudando dentro das agências, na relação com os clientes e na formação das próximas lideranças.

Birger trabalha há mais de 15 anos com tecnologia para marketing services, na Europa, na Ásia-Pacífico e, há muitos anos, no Brasil. Alemão "tropicalizado", como ele mesmo se define, chegou a São Paulo para abrir negócios e nunca mais voltou. Reunimos aqui os trechos mais interessantes da conversa.

Edu: Nesses primeiros anos de popularização da IA, quais foram os principais impactos que você viu nas agências?

Birger: Em Cannes, onde fomos patrocinadores, fizemos várias mesas-redondas com agências americanas, brasileiras e latino-americanas só para falar de IA. Todo mundo usa, todo mundo faz alguma coisa. Mas o foco principal está na criatividade, mais especificamente na eficiência da criação: produzir conteúdo mais rápido, com menos pessoas e mais qualidade.

Hoje falamos de equipes híbridas. Ainda são pessoas, mas trabalhando lado a lado com agentes de IA, e isso já acontece em praticamente todas as agências. Na operação e no acompanhamento de processos, o uso ainda é bem menor, porque as pessoas ainda não sabem exatamente como aplicar a IA ali.

Edu: Muitas vezes a IA entra nos departamentos sem organização nem governança, o chamado shadow AI. Como uma agência pode tratar a IA como algo crucial sem criar caos, mas também sem criar burocracia desnecessária?

Birger: A IA aumenta aquilo que já existe na sua empresa. Se a agência tem poucos processos centralizados e nenhuma estratégia clara para governar o dia a dia, o caos que já existe vai crescer. Se ela já tem processos integrados entre departamentos, com gestão de projetos conectada ao tempo, à capacidade e à alocação de recursos, a IA vai ajudar a crescer, economizar e criar conteúdo mais rápido.

Os grandes grupos, como WPP, Publicis, Omnicom, Havas e Dentsu, vivem uma pressão enorme por eficiência, com fusões acontecendo o tempo todo, e quase todos já têm sistemas operacionais internos com IA. O desafio maior está nas agências abaixo deles. Imagine uma agência de 500 ou 700 usuários, com 300 ou 400 criativos, em que cada um resolve o próprio problema com o agente que prefere.

Podem ser 300 agentes rodando ao mesmo tempo, e nenhum deles é gratuito: todos consomem créditos e tokens. O resultado é a perda de controle do custo total de IA da agência no mês.

Edu: O custo do token caiu, mas o investimento das agências em IA subiu. Como se explica isso?

Birger: Existe uma estatística muito interessante: o custo do token caiu 90%, em média, no último ano e meio, considerando todos os LLMs. Seria lógico esperar que o custo total de IA de uma agência também caísse. Não é o que acontece. Nas nossas mesas-redondas em Cannes, CEOs e CFOs de agências confirmaram que o gasto aumentou entre 15% e 20% no último ano.

A primeira razão é a falta de controle. Pergunte a uma agência quantos agentes de IA estão rodando hoje, às três da tarde. Ninguém sabe, seria preciso mandar um e-mail para todo mundo. A segunda razão é que, quando algo parece quase de graça, o consumo dispara: um processo criativo que rodava 20 vezes agora roda 90, só porque ficou barato.

Lá em casa a gente compara com a eletricidade. Se é quase de graça, a janela fica aberta com o ar-condicionado ligado, ninguém desliga ao sair, e no fim chega uma conta que ninguém sabe explicar. O ponto não é restringir nem atrapalhar, é controlar. Quem usa qual LLM e para quê? A qualidade de 90 rodadas é realmente melhor que a de 20, ou foi só um exercício de deixar rodar mais?

Edu: E da porta para fora? Como a IA está mudando a relação entre agência e cliente?

Birger: As marcas também usam IA, inclusive na criação, e estão mais preparadas. Muitas já conseguem absorver trabalhos que antes mandavam para a agência. Mas o grande desafio é a pressão sobre o fee. O cliente sabe que a agência tem agentes trabalhando junto das pessoas e quer receber parte dessa eficiência. Já tem agência ouvindo: "Você usa IA, precisa de menos gente, então me dá 20% de desconto em relação ao ano passado."

Para sair desse ciclo mortal, é preciso entender que eficiência se mede em horas e pessoas: menos tempo, menos gente, mais entrega. Não é uma boa palavra para o dia a dia com o cliente. A conversa precisa migrar para efetividade e valor agregado e, no melhor cenário, para um modelo em que a agência participa do resultado que entrega. Campanha boa, resultado bom, e a agência ganha junto.

Edu: As consultorias vivem uma crise com o modelo baseado em horas. Isso vai chegar às agências?

Birger: Concordo totalmente. Hoje a pressão é maior nas consultorias, porque o valor da hora delas é o mais alto entre os serviços profissionais, enquanto o de marketing services é o mais baixo. Quando o seu entregável é estratégia e documento, e a sua hora é cara, a pressão da IA é maior. Mas isso já está chegando às agências, a gente sente. Algumas já estão rompendo com o modelo atual e mudando a forma de cobrar.

Edu: Se a IA assume o trabalho operacional, onde fica a formação de novos talentos?

Birger: Muita gente ainda diz que ninguém está sendo substituído pela IA, mas o mercado já mostra evidências. Os grandes grupos anunciaram cortes de milhares de pessoas globalmente. Quem está em maior risco é a base da criação, os criativos júnior.

Existe uma oportunidade: os mais seniores podem se dedicar de verdade a pensar em valor e em modelo de negócio para o cliente. Mas a pergunta fundamental é outra. Se não houver tantos júniores, de onde vão sair os seniores de 2030, de 2033? Precisamos pensar rápido em novas formas de encontrar, formar e educar talentos, porque o modelo antigo não funciona mais.

Edu lembrou que a tecnologia viveu um problema parecido na última década, com uma demanda muito maior que a capacidade de formar profissionais. Birger concordou: vale olhar para essa história para não cair no mesmo buraco da falta de gente.

Edu: Que mensagem você deixa para o CEO ou COO de uma agência com a equipe sobrecarregada e uma conta que não fecha no fim do mês? Por onde começar?

Birger: A performance de uma agência tem dois lados: a operação, com seus custos, e o negócio, com a retenção e a conquista de clientes. A IA mexe nos dois. No negócio, é preciso enxergar a IA como oportunidade, não como ameaça. Aconteceu o mesmo quando surgiram as redes sociais: quem abraçou a mudança cedo se beneficiou muito.

Na operação, a IA pode gerar mais caos ou ajudar, uma das duas coisas. Muitas agências ainda trabalham com uma salada de ferramentas: uma para projetos, outra para registrar horas, uma planilha de Excel para o tráfego, outra para RH, outra para anotações. Cada uma é boa no que faz, mas nenhuma conversa com a outra, e não existe uma fonte única de verdade.

Sem ela, faltam dados confiáveis para decidir. Qual o percentual de horas faturáveis no mês, e ele está acima ou abaixo da média do mercado? Quantas refações cada cliente gera? Qual a rentabilidade por cliente, por projeto, por campanha? Primeiro, se organize bem. Depois, abrace a IA. Essa é a minha mensagem.

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